Guna
Camisola justa de manga comprida. Cardinal. Calça de ganga desbotada, bainha arregaçada. Cabelo desalinhado chic de quem põe gel à segunda-feira e o vai mantendo operacional com umas borrifadelas de água durante toda a semana. Era assim o Guna. Corpo magro. Andar hip-hop. Moreno. Olho escuro. “Cuida da alma que o corpo está perdido”, dizia de sobrolho arqueado a quem pressentia estar na recta. Na final. Fosse por chutar de mais prá veia. Ou por arriscar de mais nos “negócios”.
O Guna andava sempre nas calmas. “Don’t stress!” Era a expressão que mais usava. Para acalmar a fúria da “velhota” por mais um emprego perdido. Para garantir que os “negócios” corriam bem. Para o man que desesperava pelo telemóvel de terceira geração que o Guna ficara de “orientar” a preço de amigo.
Curtia ir com a sua miúda a uma esplanada junto à praia. “Bora lá que se faz tarde!” As miúdas… Sempre a mesma cena. “Nunca estão prontas quando um gajo chega”. O Guna ficava nas horas quando tinha de estacionar a mota e entrar em casa da miúda. Sobretudo ao Domingo quando encontrava o pai da babe esplanado no sofá da sala. O velho tinha a mania de bater logo na tecla mais gasta: “Então rapaz já arranjaste emprego?” Era nessas alturas que Guna se arrependia de ter tirado o capacete. “Tenho aí umas cenas em vista mas ainda nada de concreto”, desculpava-se Guna da forma como podia abafando a custo o que lhe ia na alma: “Fonix pá gaja!”
De mota pela circular fora até à praia. Pelo caminho uns cavalinhos prá “miúda” ver que namorava com um fixe e não com um cromo qualquer. E porque curtia ouvir os gritinhos de medo da babe e senti-la apertá-lo com força para não cair à estrada.
À semana era raro tar com a babe. O velho dela era passado dos carretos. Queria que a miúda fosse para a universidade. Que estudasse muito. “Pa saíres daqui do bairro e seres alguém na puta da vida!” Mas a miúda tinha outros planos. Queria casar com o Guna e ir viver para a sogra com quem se dava muito bem! “Faço o 9º ano e baso!” Com 100% de apoio do seu gajo, que tinha basado da escola muito antes dos 15 anos: “Ya linda, depois arranjas emprego no shopping!” Era por isso que ela amava o Guna. Com ele era tudo muito simples. Não havia stresses.
Nem mesmo quando a miúda lhe anunciou em lágrimas que estava grávida o Guna stressou. Só o velho é que ia tendo um ataque. Mas aí o Guna assumiu o erro de cálculo, arranjou emprego numa bomba de gasolina e casou na boa com a mãe do seu baby. Foram viver para casa da mãe dele.Trocaram-se os quartos e a velhota ficou no “mais um” sem janela onde o Guna dormia. Um pouco abafada mas feliz por ter um pirralho para cuidar. Mal recuperou do parto a miúda fez-se à vida e lá conseguiu arranjar o tal emprego no shopping. O Guna continuava a dar o litro na bomba e até deixara os “negócios”: “Tudo pelo puto!”, dizia à gera do bairro que elogiava a vida atinada que ele passara a levar. O filho sim, seria alguém… Ou pelo menos eram essas as esperanças do Guna e da miúda.
puto-reguila
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